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domingo, 27 de novembro de 2011

Carne brasileira seria mais anti-ética que a britânica...

Carne brasileira é 100 vezes mais antiética que a britânica, diz 'The Guardian'

Em artigo publicado pelo jornal The Guardian, o jornalista e ativista político Georges Monbiot afirma que comer carne brasileira é "cem vezes mais antiético" do que comer carne britânica.

Monbiot trata da descoberta de novos casos de febre aftosa no Mato Grosso do Sul, mas também afirma que a expansão da pecuária no Brasil é a principal responsável pelo fato de que "os últimos três anos foram os mais destrutivos da história da Amazônia brasileira".

Ele atribui a pecuaristas da região "o massacre" de 1,2 mil pessoas e o que diz ser a "quintuplicação" da escravidão no Brasil nos últimos dez anos.

"O governo de um país que – apesar de seus melhores esforços – não conseguiu acabar com a escravidão, os assassinatos e as catástrofes ambientais espera que a gente acredite que seus padrões de higiene nas fazendas são implementados de forma tão rigorosa quanto as de qualquer outra nação", escreve o ativista.

Ele termina o texto conclamando os leitores do jornal a ajudá-lo a "localizar" os estabelecimentos que vendem carne brasileira, uma vez que, segundo o autor do texto, ninguém na Grã-Bretanha agora admite que está negociando o produto.

Tirando o brilho

Outro jornal britânico, o Financial Times, afirma que o gado brasileiro com febre aftosa é um dos três "incidentes" que estão "tirando o brilho" de recentes vitórias do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições para as lideranças do PT e do Congresso.

O segundo incidente é o recuo do governo na chamada "MP do Bem", qualificada por um analista citado pelo jornal como "a mais importante iniciativa legislativa do governo neste ano".
E um terceiro incidente, segundo o FT, é a seca que atinge a região amazônica.
"Críticos dizem que mais deveria ter sido feito para preparar serviços de emergência", diz o jornal


In:

DESMATAMENTO DAS FLORESTAS e Fome Mundial...



« A expansão da pecuária no Pará, que abrigava (quando o presente artigo foi escrito, há alguns anos atrás) o quarto rebanho do Brasil com 18 milhões de bovinos, é uma das causas das ocupações das terras e do desflorestamento das florestas públicas. Segundo o jornal Estado de São Paulo, eram abatidos até 3000 bovinos por dia nos entrepostos frigoríficos do sul do Estado.

Em uma outra região do Pará, na Terra do Meio, situada no sudeste do estado, 60.000 hectares de floresta já foram devastados nos últimos anos; sendo que 10.000 ha desde o começo do ano passado em questão...

Agosto de 2003 a Agosto de 2004: O Brasil perdeu mais de 26000 km quadrados da Floresta Amazônica!.


Sim... já notamos essas coisas há alguns anos, e já as denunciamos por escrito:
Em uma carta datada de  18/03/03 (Culture Net 2013, Mensagem n°2 "O vegetarianismo e sua influência mundial (noções de base)”
 DaneelOlivaw13@aol.com  escreveu:

    << Para alimentar os animais ocidentais cujas carnes serão destinadas a nossos restaurantes, mac-donalds e cozinhas familiares, ... o Brasil foi obrigado a aumentar de 400% suas exportações de Soja entre 1977 e 1980, enquanto que, concomitantemente, 10.000 crianças morriam de fome por ano, e que, as estatísticas apontavam, oficialmente, (!), 38 milhões de subnutridos...
    No Senegal, a cultura do amendoim feita para alimentar os animais da pecuária substitui a cultura de  lavouras familiares  que alimentavam a população local. De 1980 à  1988 mais de 65.000 crianças morreram de fome anualmente, e isso em uma população que contava com apenas 4,54 milhões  de habitantes... Enquanto isso, na Tailândia, 90% da produção de mandioca, principal recurso do país, foram exportados para alimentar os animais cujas carnes eram destinadas á alimentação patogênica e degenerativa dos escravagistas ocidentais...
Durante esse tempo, 50.000 crianças morriam de fome na Tailândia, país que possuía então apenas 5,1 milhões de habitantes...
60% da  produção ocidental de bovinos ‘consome’  a produção pesqueira chilena e peruana, enquanto que, entre 1980 e 1985, 48.000 crianças morriam no Chile e
 90.000 crianças morriam diretamente ou indiretamente de Fome!...
Em todos estes países, milhares de camponeses são expropriados de maneira brusca para que suas terras possam ser utilizadas para cultivos destinados à exportação, e tudo isso é feito com o consentimento, mesmo com o apoio dos governos dos países industrializados, então, evidentemente, com a cumplicidade de todos os cidadãos ocidentais!!! (...)

    Apenas nos Estados Unidos, a indústria da carne é responsável pela perda de 85% da camada fértil do solo. Ela utiliza cerca de metade da água do país e produz vinte vezes mais excrementos que toda população americana, o que aumenta, obviamente, a poluição da terra e da água, enquanto o ar é submetido a uma carga cada vez maior de metano.

    Você sabia que o gado americano sozinho come quantidades astronômicas de cereais e soja, quantidades estas que poderiam alimentar cinco vezes a população dos Estados Unidos? (...)
Em uma análise ainda diferente, um esquema feito há alguns anos por Joël de Rosnay ilustra o problema da “energia”!!!...
“Em 1974, se os americanos tivessem comido 35% menos carne, 32 milhões de hectares de terra que serviram para alimentar a pecuária, teriam sido liberados, e ali poderia se ter plantado soja em 5% da superfície para restituir aos americanos as proteínas das quais precisariam.  No resto de 95% da superfície, poderia se ter plantado vegetais que crescem rapidamente. Tal biomassa teria alimentado 255 centrais térmicas de 1000 Mégawatts, ou seja, a potência total em eletricidade instalada nos Estados Unidos naquele ano!... (E poderíamos adaptar à vontade esses números aos dados franceses ou mesmo europeus!...) (...)
«  Por um simples hamburger envolvido em dois pedaços de pão branco, é necessário transformar cinco metros quadrados de floresta virgem em pasto ! Globalmente, os Estados Unidos transformam por dia 1.000 toneladas de boi em hambúrgueres... Isso significa o desflorestamento acelerado de regiões inteiras da América do Sul e da América Central. O fenômeno é impressionante: 25 milhões de seres humanos se ‘dedicam’ a cada dia, através do consumo passivo de  hambúrgueres a destruírem massivamente o meio ambiente.”  (...)

Por exemplo, a Costa Rica
“Suíça da América Latina” era recoberta por cerca de 72% de florestas em 1950, ou seja, 37 000 km quadrados. Quando este texto foi escrito, esta superfície é de apenas 26 % e 60.000 hectares  são destruídos por ano. O gado invadiu as áreas desflorestadas: “quando as carcaças dos animais rumam para os Estados Unidos ou para a Europa, a preços ridiculamente baixos, enquanto que para a população local os preços são altíssimos, os solos do país já estão enfraquecidos e em vias de desertificação!(...)

No primeiro ano após o desflorestamento, é preciso contar com um hectare de prado para alimentar uma cabeça de gado. Cinco anos depois, de cinco a sete hectares não são suficientes. E cinco anos mais tarde, o solo tornou-se definitivamente estéril!(...)

Concretamente, não é a Dietética que tornará o homem sadio, mas nós homens, devemos tornar a Dietética sadia, quer dizer, não apenas uma ciência idealista e portadora de uma consciência coletiva, mas igualmente forte economicamente e socialmente, permitindo uma reconstrução fundamental de todos os circuitos e setores das atividades que tocam de perto ou de longe o ato da alimentação.
Visão utópica, segundo alguns, mas afirmo que é muito mais utópico esperar prosperarmos tranquilos e serenos, tendo como ideal um egoísmo vegetativo, sem sofrer, nos anos vindouros, individualmente e coletivamente a revanche devastadora do crédito que concedemos à indústria!
 (...)
Modificar mesmo que pouco nosso conforto pessoal pode ter um impacto considerável não apenas sobre nossa saúde, mas, sobretudo na coletividade inteira!....



A exploração intensiva da terra e da madeira ocasionou um desflorestamento massivo na América Latina.  Dos 998 milhões de hectares de florestas que existiam em 1970, restavam apenas 958 milhões em 1980, 919 em 1990 e 913 em 1994... Estima-se que 5,8 milhões de hectares da Floresta Amazônica vêm sendo destruídos anualmente. Um fenômeno que toma uma dimensão particular no Brasil, visto que o país alcançou 8% das exportações mundiais de madeira dura em 1995. Este desmatamento progride ano após ano e estudos científicos estabelecem que não vem sendo respeitado o ciclo obrigatório de 25 a 30 anos para que a regeneração das espécies ocorra.



FONTES : Programme des Nations unies pour l’environnement (PNUE) ; Global and Resource Information Database, Grid, Genève, Suisse ; Grid-Arendal, Norvège.




Tradução Livre de Anna Cristina Reis Xavier do documento original que se encontra in:

    

Soja destrói Amazônia

Adital – Agência de Notícias da América Latina e Caribe – publicou o artigo"Soja Destrói Amazônia", que descrevia as recentes ações do GreenPeacecontra a Cargill, produtora e exportadora de soja da região. 
E, se a soja destrói a Amazônia, não é culpa dos vegetarianos e veganos de carteirinha não. Muito antes pelo contrário, a culpa é dos consumidores carnívoros, pois esta soja que destrói a Amazônia é cultivada para alimentar o gado que se tornará comida humana.

O artigo em questão citava Paulo Adário, coordenador brasileiro da operação: "Empresas estadunidenses como a Cargill estão devorando a Amazônia para cultivar soja. A carne alimentada com essa soja termina nas prateleiras dos supermercados e restaurantes fast food pela Europa e outros países".








Fora isso, o artigo fez breves comentários sobre o fato de o cultivo de soja ser o maior fator de destruição da floresta amazônica. Falou-se que o GreenPeace havia publicado recentemente um relatório intitulado "Comendo a Amazônia", mas não se fez alusão ao conteúdo deste relatório, nem onde encontrá-lo. 

De qualquer forma, entre os mais de mil artigos sobre meio ambiente publicados pela Adital nos últimos seis anos, o texto supracitado foi o único que fez menção ao fato de a Amazônia não estar apenas sendo destruída impunemente, e sim sendo comida, voraz e cegamente, pelos consumidores de carne bovina Brasil e mundo afora.


Há centenas de artigos circulando na Internet que confirmam esse fato, baseados em inúmeras evidencias irrefutáveis. No entanto, parece que os meios de comunicação, inclusive os mais alternativos, engajados e confiáveis, deixam de relacionar destruição ambiental ao consumo de carne.
Fala-se em criação de gado como se os gigantescos rebanhos fossem um mal em si, existindo e se reproduzindo para adornar pastos. Fala-se de cultivo de soja como se sua exportação não fosse quase inteiramente destinada à produção de rações para animais criados em regime de pecuária intensiva de países ricos. 

Em resumo, sempre que a mídia se debruça sobre as causas do aquecimento global ou da devastação das florestas tropicais, e esses temas aparecem com frequência crescente, come-se uma mosca do tamanho de um boi ao não informar aos leitores que 90% de cada hectare de mata derrubada ou queimada na Amazônia ou são comidos na forma de carne pelas classes mais abastadas da região sudeste (responsável por mais de 70% do consumo da carne proveniente do norte do país), ou devorados, na forma de soja, pelos bois, porcos, carneiros e outros bichos que vão parar no prato dos já robustos habitantes de países desenvolvidos, que não têm mais mato para queimar. 

Não se trata de abordar essa questão sugerindo ao leitor que deixe de comprar e comer carne de uma hora para outra, ou garantir que essa seria a solução milagrosa para os problemas ambientais brasileiros. Trata-se de instigar o leitor a refletir sobre o assunto e deixá-lo ciente do fato de que a floresta amazônica está desaparecendo bem debaixo do nariz de cada um: na boca. E de convidá-lo a assumir sua parcela de responsabilidade nesse desastre ambiental cada vez que entra num açougue. 

Que ele saiba que a Amazônia não esta sendo destruída pelos "outros", mas sim por todos e por cada um, um pedacinho de cada vez, uma, duas e até três vezes por dia! A título de ilustração, há um estudo que revela que, a cada minuto, uma área de floresta tropical equivalente a um campo de futebol (cerca de um hectare), é queimada para dar lugar a um pasto cuja produção total de carne será equivalente a um engradado com 257 hambúrgueres. 
Poderíamos resumir a história do desaparecimento da Natureza do Brasil em uma única lápide: "virou bife"!

VOCÊ JÁ COMEU A AMAZÔNIA HOJE?

Este excelente texto que mostra de forma clara a ligação do consumo de carne e da destruição da floresta Amazônica foi escrito por João Meirelles Filho. 





João Meirelles vive em Belém, Pará, na região do estuário do rio Amazonas. Trabalha numa entidade sem fins lucrativos, o Instituto Peabiru – www.peabiru.org.br e se dedica ao fortalecimento institucional de organizações sem fins lucrativos da Amazônia. É autor do Livro de Ouro da Amazônia (3a edição, Ediouro, Rio de Janeiro 2.004). Décima geração de pecuaristas que abriram as fronteiras pioneiras do Brasil, deixou de comer carne bovina em 2.000. 






Eu não aceito que, em meu nome, o governo federal brasileiro conceda autorização para o desmatamento da Amazônia, e você, aceita? Eu não autorizo que o dinheiro público, de bancos oficiais, seja empregado para a criação de bois na Amazônia, e você, autoriza?

Você e eu somos bois-de-presépio ou cidadãos do planeta? Você acredita que a sua forma de viver, alimentar-se, comportar-se, construir a sua casa, presentear seus amigos, visitar os lugares ou votar possua relação direta com a Amazônia?

Caso afirmativo, você aceitaria avaliar se está comendo ou não a Amazônia? A cada dia as pesquisas científicas e os relatórios ambientalistas são mais taxativos: não podemos nos dar ao luxo de esperar que as pessoas se convençam sobre a gravidade da situação da Amazônia. Será tarde demais quando fazendeiros, garimpeiros, madeireiros, funcionários públicos, representantes do poder público e a população em geral , despertarem para o fato. Teremos perdido a maior parte da Amazônia.


Os fatos

Em cinco séculos 95% das populações indígenas desapareceram. Nações inteiras foram extintas pelas doenças, pela escravidão e pelas armas trazidas pelos europeus. As Nações que sobreviveram, cerca de 180, com mais de 200 mil indivíduos (1% da população da região), contam com poucos aliados entre os funcionários públicos e organizações da sociedade civil para se defenderem de garimpeiros, caçadores, ladrões de madeira e grileiros.

Em termos sociais a Amazônia é uma das regiões de maiores desigualdades econômicas e sociais do planeta. Esta é, de longe, a mais violenta do país, respondendo pela maioria dos casos de morte em conflitos pela terra, número de trabalhadores escravizados em fazendas de pecuária e pela grande insegurança das áreas urbanas. Os 23 milhões de habitantes estão longe de se beneficiar da biodiversidade, da etnodiversidade, de suas riquezas culturais e da produção de madeira e minerais. O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano, da ONU) da região equivale ao dos paises mais pobres do planeta.

Em termos ambientais oferecemos, ano apos ano, o maior espetáculo de pirotécnica ao queimarmos mais florestas para virarem pasto. O desmatamento e as queimadas da Amazônia tornam o Brasil um dos principais paises emissores de gases que contribuem para o efeito estufa. As mudanças climáticas são irreversíveis.

Em termos de biodiversidade, em apenas 4% da superfície terrestre a Amazônia continental deve abrigar mais de 1/5 da biodiversidade do planeta. Nas áreas mais comprometidas, como no entorno de Belém, por exemplo, ¼ das aves estão ameaçadas de extinção. Uma vez extinta uma espécie, esta extinção é para sempre.

Em termos ambientais, de 1.500 a 1.964 desmatamos menos de 1% da Amazônia. Nos últimos 40 anos desmatamos cerca de 16% da região. uma área equivalente a duas vezes a Alemanha (ou três estados de São Paulo) em pasto. Esta área de 750 mil km2 é duas vezes maior que a área agrícola do pais. Pior, 1/4 desta área encontra-se abandonada porque o objetivo de derrubar o mato foi o de tomar a posse da terra, para dizer: aqui tem dono.

No momento estamos perdendo cerca de 24 mil km2 de cobertura nativa ao ano. Isto significa que a cada ano estamos desmatando uma área equivalente a 2/3 da Bélgica (ou do estado de Sergipe).

A cada ano perdemos cerca de 1% do que resta da floresta amazônica. Se nada for feito teremos perdido mais da metade da floresta nos próximos 30 anos. Eu não autorizei. Você autorizou?

Estamos apenas medindo a febre e não combatendo as causas da doença. A febre em um doente alerta que algo vai errado, é apenas um índice. Há grande comoção quando os índices de desmatamento são expostos ao vexame público, e pouco interesse em discutir as verdadeiras razões de seu crescimento.

São os grandes fazendeiros! - apontam uns! É a expansão da soja! - sugerem outros. É a abertura de estradas, a ineficácia e ausência do poder público, o aumento das fazendas, os madeireiros, os garimpos, e assim por diante... Será que não continuamos na periferia do problema? Será que estamos apontando apenas as conseqüências de atos que praticamos em nosso dia-a-dia, de forma relapsa, impensada e, digamos, irresponsável?


Os responsáveis somos nós!


Será que estamos fazendo as perguntas certas? Quem é responsável pela maior parte dos desmatamentos? Não será difícil responder: as propriedades rurais dedicadas à pecuária. Trata-se apenas das grandes fazendas? Não, as pequenas e médias têm na pecuária bovina e bubalina (de búfalos) sua principal atividade.

E por que expande a pecuária na Amazônia? Certamente um fazendeiro tradicional irá comentar: “porque é mais barato produzir carne na região, a terra tem pouco valor, a mão de obra é barata, há pouca fiscalização dos órgãos ambientais, trabalhistas e da receita federal”.

Esta, no entanto é uma resposta insatisfatória. Afinal, esta carne vai para algum lugar. Alguém consome este produto. Os dados são claros: mais de noventa por cento da carne produzida na Amazônia é consumida no próprio Brasil, a maior parte nas regiões de maior poder econômico – Sul e Sudeste. O crescimento do consumo de carne bovina é significativo. A cada dia mais e mais pessoas querem a sua picanhazinha e a sua maminha.

Em quarenta anos, de 1964 a 2004, o rebanho bovino da Amazônia saltou de 1,5 para 60 milhões de cabeças. Parte deste rebanho é clandestino. Este lote de animais prontos para morrer para saciar o desejo de comer carne bovina representa 1/3 do rebanho brasileiro. Três cabeças de boi para cada habitante da Amazônia. No Brasil já há mais bois que gente!

A pecuária é a principal atividade econômica rural da Amazônia. Não se trata apenas de grandes e médios propriedades (estes são 25 mil famílias com áreas acima de 500 hectares). A maior parte dos 400 mil pequenos proprietários rurais da Amazônia tem na pecuária a sua principal fonte de renda (seja pelo fracasso das demais atividades econômicas, seja pela completa incompreensão do que seja a natureza amazônica ou impaciência com a Natureza, preferindo carboniza-la a conduzir a dança da sustentabilidade).

Lembremos que estamos em um país onde a maioria vive em grande carestia. Se não fosse devido o baixo poder aquisitivo do brasileiro o consumo de carne seria pelo menos o dobro. O brasileiro come, em média, um bife pequeno por dia (100 gramas) - 36 kg de carne/ano.

Um boi de 16 arrobas tem em média 240 kg de carne. Se você comer carne bovina durante sua vida (72 anos – a idade média do brasileiro), isto significa um boi a cada 6,6 anos, 11 bois inteiros durante a vida – 2,6 toneladas de carne! Destes 11 bois, pelo menos 4 terão vindo da Amazônia, ou seja, a cada três dias o brasileiro come um bife da Amazônia.

Sabe-se que este é um índice médio. O consumidor da classe alta e média chegam a comer mais de 3 vezes esta cifra - 108 kg/carne bovina/ano. Ou seja, um caminhão com 32 bois, mais de 7,5 toneladas de carne em sua vida!



Quanto custa para a Humanidade este bife?


A insistência do modelo mundial de ocupação do solo, que privilegia a pecuária é o principal responsável pela fome e desigualdade na área rural do Planeta. A quantidade de água, solos e recursos utilizados para produzir um quilo de carne seria suficiente para alimentar pelo menos 50 pessoas.

A expansão da pecuária é responsável por pelo menos 2/3 dos desmatamentos das florestas tropicais do planeta. Estas já ocuparam 16% do planeta. Hoje ocupam menos de 9%. Da II Guerra Mundial até hoje perdemos mais de 3% das florestas tropicais do planeta. Por quê? Principalmente porque há gente querendo comer carne bovina.

A pergunta que fazem os fazendeiros é: quanto o bife custa no seu prato? A pergunta que deve inquietar o cidadão deste planeta é: “quanto custa de esforço à Humanidade para você ter o luxo de um bife em seu prato?”

A pecuária é o pior empregador que existe no planeta. A miséria brasileira no campo pode ser resumida a uma frase: a pecuária bovina expulsou o homem do campo. Numa grande fazenda na Amazônia, emprega-se diretamente uma pessoa a cada setecentos bois, que ocupa uma área de 1 mil hectares. A mesma área com agricultura familiar empregaria pelo menos 100 vezes mais, com agro-floresta em permacultura empregaria 250 pessoas!

A pecuária gera pouca renda e esta é praticamente transferida para fora das regiões produtoras. A ilha do Marajó, uma área do tamanho da Suíça, após duzentos anos de pecuária (bovina e bubalina), tornou-se uma das áreas mais pobres da Amazônia - e do planeta – com índices de desenvolvimento humano (IDH) equivalentes aos de Bangladesh. Em Chaves, no Marajó, um quarto das crianças está fora da escola e 77% das crianças não tem luz em suas escolas!

A pecuária é altamente concentradora de renda. Inexiste uma única região do Brasil onde a pecuária promoveu o desenvolvimento com justiça social. Pior, a maior parte dos fazendeiros perde dinheiro com a atividade. Como não sabem fazer contas não percebem que estão ficando mais pobres a cada dia e que pouco poderão oferecer a seus filhos e netos. Os estudos científicos do Imazon apontam que a pecuária é tão ineficiente que, em média, não oferece uma renda superior à da caderneta de poupança. Ou seja, seria mais negocio ao pecuarista vender tudo o que tem e viver do dinheiro aplicado.

Por quê, então, optamos pelo boi? Porque não pensamos, somos tão bovinos quanto a ilustre e inocente criatura. Não medimos conseqüências. Pautamo-nos pelo passado. Não questionamos se o que nossos pais e avós fizeram seria o melhor para nós, para nossas famílias e para a Humanidade.

Nem sempre a Humanidade fez escolhas certas. Em sua maioria são escolhas cômodas. Não medimos as conseqüências. No entanto, estamos diante de uma encruzilhada – ou transformamos a Amazônia em um imenso pasto ou iremos entregar às futuras gerações a mais diversa e bela floresta tropical do planeta. A escolha é sua. E de mais ninguém.


Quinhentos anos de atraso
Não há por que se assustar com esta responsabilidade. O Brasil é o campeão da falta de percepção ambiental e social. A pecuária bovina é sinônimo da história da ocupação do Brasil. Desde que o primeiro europeu colocou seus pés no Brasil, foi seguido pela pata do boi. O vírus da gripe, o boi, a bíblia e a arma de fogo modificaram este continente – difícil saber o que causou mais danos.

O boi é uma fonte de proteínas de baixíssima eficiência energética (converte em carne meros 7% do que come). Com sua pata compacta o solo, causa erosão e destrói as micro-bacias e o seu consumo traz sérias conseqüências à saúde.

O boi é um trator funcionando 24 horas. E por quê? Para saciar a vontade de comer picadinho, hambúrguer e estrogonofe. Para transformar o Brasil no maior pasto do planeta foi preciso “abrir” espaço para este animal. “Mato” (leia-se: floresta tropical com grande diversidade biológica) não alimenta boi. As florestas tem que ceder lugar ao pasto. Poderíamos resumir a história do desaparecimento da Natureza do Brasil em uma única lápide: “virou bife”. Em 500 anos reduzimos os 1,5 milhões de hectares da Mata Atlântica (floresta tropical atlântica) a meros 7% de sua área original, a Caatinga para menos de 20% e o Cerrado para menos de 25% de sua área. Pior: a degradação continua, de maneira acelerada.

Insistimos em ocupar novos pastos na Amazônia ao invés de melhor a produtividade do que já se transformou em pasto no Sul, Centro-Oeste e Sudeste. O Brasil continua um país irresponsável em termos de produtividade na pecuária. Dos 850 milhões de hectares do Brasil, há no país cerca de 250 milhões de hectares de pasto(cerca de 30% do pais). Deste total, cerca de 30% está na Amazônia - 75 milhões de hectares. A produtividade na Amazônia é pífia – 0,7 cabeças/hectare - símbolo da incompetência em compreender e tratar o meio físico amazônico. Vamos lembrar que o Brasil todo possui cerca de 50 milhões de hectares em área plantada!

Neste ritmo, em duas décadas teremos mais bois na Amazônia do que a totalidade do rebanho brasileiro atual (170 milhões de cabeças). No Brasil já há mais bois que brasileiros.

Resumo de nossa história: o Brasil virou pasto e nossa grande contribuição à humanidade foi substituir a maior floresta tropical do planeta em churrasquinho. Carne com gosto de fumaça, violência e extinção de espécies. Apesar da ditadura militar ter se desmilinguido nos anos 1980 a Amazônia continua sob o domínio do medo, da lei do mais forte, do coronelismo, da grilagem de terra, da corrupção e do incentivo fiscal a quem dele não necessita. Quem manda é o revólver e a motoserra. Um boi vale mais que uma vida.


Por quê?
Porquê insistimos em incorrer nos mesmos erros que nossos antepassados europeus, para quem a “pata de vaca” era sinônimo de progresso. O boi é celestial. O mato é o demônio. O arame farpado é progresso. A floresta calcinada é progresso. O mugido do boi é progresso. O pasto, que pode ser medido e contabilizado é celestial.

O país continua a tratar a Amazônia como uma área ainda não conquistada, um imenso estoque de terra pronto para virar pasto. E mais, a Amazônia como fonte inesgotável de madeira, peixe, ouro, alumínio, energia elétrica etc.

As políticas públicas e a maior parte das empresas despreza os 10.000 anos de convivência com a floresta tropical. Desta aprendizado passo a passo, de descoberta do ser e viver. O Brasil trata as comunidades indígenas e a caboclas como culturas “primitivas”, “bárbaras” e “demoníacas”. O mato, o espaço do desconhecido, do que não pode ser controlado, é o antro do medo, da escuridão. É no mato que estão os piores horrores.

Não haverá aqui uma inversão de valores? Estamos prontos a reconhecer este erro? Ou continuaremos a nos ufanar que temos o maior rebanho comercial do planeta? Que nossos bois são “bois verdes”, comem só capim?

Vamos continuar a nos enganar? Seremos honestos com as futuras gerações? Quem está disposto a pensar um novo Brasil? Seremos os bois-de-presépio da vez, que sentam-se na lanchonete e devoram silenciosos seus hambúrgueres?


O desafio

Cabe a nós, e tão somente a nós todos, sermos diligentes e eficientes em propor um novo pacto civilizatório para a Amazônia, capaz de diminuir a pressão sobre as populações nativas e o meio ambiente. Seus 23 milhões de habitantes, com amplas necessidades de consumo, inclusive de proteínas, demandam respostas rápidas. Afinal, come-se a Amazônia três vezes ao dia, no café-da-manhã, no almoço e no jantar.

Deste total há 7 milhões de habitantes na zona rural, dos quais cerca de 2 milhões vivem em trinta mil comunidades tradicionais, em sua maioria com acesso precário a serviços públicos de educação, saúde, água, esgotos, energia, segurança e assistência técnica agrícola.

Não estará na hora de nos transformarmos de destruidores em enriquecedores da natureza. Será que não bastam os 75 milhões de hectares já desmatados da Amazônia (área superior a toda área agrícola do país) para revolucionarmos nossa compreensão de floresta tropical produtiva?

Não será a hora de formarmos agricultores da sustentabilidade (permacultores), guarda-parques, guias de ecoturismo, artesãos, madeireiros cuidadosos, cientistas e estudiosos do saber local?

E nós, continuaremos a ser meros telespectadores? Corrigindo, na verdade, somos mais que telespectadores, somos os que financiam este processo, silenciosamente, nas gôndolas de supermercado, nos espetinhos, nos pastéis de carne...Mais do que rebanhos de consumidores, de cabeça baixa, nossa ignorância alimenta a injustiça e a destruição. Aceitamos, silenciosamente, que as coisas continuem como estão.

Medidas praticas para o dia de hoje
Você pode mudar a Amazônia a partir de agora. A sua decisão de consumo afetará profundamente o que se produz na Amazônia.


Em nível individual:

se você come carne, pergunte a quem lhe vende, de onde vem a carne para saber se você está comendo ou não a Amazónia?
Se você mora fora do Brasil – pergunte se é mesmo imprescindível vir carne da Amazónia e das outras florestas tropicais (muitas vezes você come a Amazónia na forma de soja, que ao invés de alimentar pessoas é dado a porcos, galinhas e vacas)?
Que medidas o poder público pode tomar agora por meio de decreto: aumentar a taxa do imposto territorial rural das áreas de pastagens, modificar a fórmula de cálculo do imposto de renda dos fazendeiros, fiscalizar com seriedade as questões ambientais, trabalhistas e tributárias da cadeia produtiva da carne na Amazônia.

Em nível coletivo nacional:

Não seria oportuno discutir uma moratória de alguns anos, digamos, quatro anos, onde nenhuma autorização de desmatamento fosse concedida. Não seria este um tipo de compromisso que um novo presidente da República deveria assumir?
Não seria oportuno organizar um amplo programa de reeducação para fazendeiros e suas famílias, permitindo que fossem capacitados em técnicas sustentáveis de convivência com a floresta? Afinal, eles são pessoas como nós, que só querem ter uma vida digna para si e seus familiares. A pecuária é apenas o meio de vida que se lhes coube e que sabem trabalhar.

Em nível coletivo internacional:

Não está na hora de efetivamente discutir a relação entre a destruição das florestas tropicais do globo e a pecuária e o consumo de madeiras tropicais?

Teremos que olhar a Amazônia de outra forma, não através dos olhos bovinos que esmagaram o futuro nos últimos cinco séculos. É preciso que aceitemos que não somos bois-de-presépio nem bois-de-piranha. Somos seres capazes de decidir o que queremos. E queremos justiça social, ambiente saudável, emprego e renda com equidade. Queremos entregar às futuras gerações a Amazônia com a etnodiversidade, a biodiversidade e a diversidade cultural melhor ou igual àquela que recebemos.