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domingo, 20 de novembro de 2011

A OUTRA METADE - Manifesto de Loen

A outra metade
O Manifesto de Loen
Artigo coletivo
Tradução: Anna Cristina Reis Xavier; revisão: Eliana Moser


  
Nós, todos os animais
temos o dom mágico de sentir que existimos.
As pedras e as locomotivas, os tubérculos e os frutos não reconhecem a doçura do ar e do carinho da água, nem sentem a emoção de se aconchegarem uns nos outros.
Mas, para nós, os animais, a vida pode ser bela.



Logo será nossa festa ?
As guirlandas estão prontas, estão prontas as correntes, as facas, as gaiolas, os presentes. Em breve saborearemos mais ainda a alegria pelo fato de estarmos reunidos. Em breve os golpes e as facadas matarão mais do que normalmente. Os votos de "Paz na terra" e os “votos de felicidades" navegarão tranqüilamente sobre um mar de sangue ainda maior do que o habitual.



Muitos animais irão à grande festa: os vivos estarão em volta da mesa e os mortos, colocados no meio. Pois o mundo, como é dito, é feito de duas metades, uma nascida para reinar e a outra para morrer.

Feliz Natal, para quem ?
Haverá pinheiros, Papais Noéis super simpáticos, presépios com um boi e um menininho. O boi não sentirá o cheiro do pinheiro nem o da palha. Ele terá o fôlego rouco do animal que cai; a vida escapará por sua garganta cortada; e, em seguida, os Papais Noéis repartirão seus membros com as criancinhas.



Para quem
o Feliz Ano Novo ?

Em breve chegará o Reveillon, a noite dos 'bons vivants' com suas barrigas de cemitério.
Leitões que são amputados de seus rabos e de seus dentes, bezerros que são arrastados de joelhos para a derradeira viagem. Vocês, os mutilados, os prisioneiros, os asfixiados, os engordados à força, os eletrocutados, os estripados, a quem vocês se dirigem clamando piedade? Os 'bons vivants' com suas vozes melodiosas já cobrem seus gritos e ignoram seus lamentos. Eles falam de dons culinários e de forros de mesa rendados, eles celebram as talentosas mãos calosas (que seguram os facões, os funis, as redes) e o talento imenso de excitar as papilas gustativas cozinhando seres mortos. Ou você fala a língua deles ou você é um desmancha prazeres. Para fazer parte da família é necessário organizar...
... a comunhão
no sangue !



Natal ou Ano Novo sem perú, sem patê de fígado, sem salmão, sem caviar, sem ostras, sem leitão, sem mousse de pato, sem lagosta, sem chouriço, sem caviar... faltaria o essencial! Ter convidados e não oferecer carne, isso não se faz! Imagina, são nossos convidados, e devemos honrá-los, devemos provar-lhes nossa estima, mostrar como somos bons anfitriões!
Macabra comunhão paga com o preço de um sacrifício. Veja como te honro, imolei para você inúmeras vítimas! Somos seres iguais, dignos de ceifar as vidas daqueles que pertencem à outra metade.




Nesses tempos generosos, os mais pobres não serão esquecidos. Na França, são realizadas festas de reveillon humanitárias, e os pobres também receberão suas devidas partes de patê de fígado gordo. Depois serão mandados de volta para gelarem nas ruas, ungidos de dignidade.

La tierra toda el sol y el mar
[A terra toda, o sol e o mar]

Son para aquellos que han sabido,
[são feitos para aqueles que sabem]

Sentarse sobre los demàs.
[passar por cima dos demais.]

Me lo decía mi abuelito,
[Isso é o que meu avô sempre me dizia]

Me lo decía mi papà
[e também meu pai.]

Me lo dijeron muchas veces,
[Me disseram tantas e tantas vezes,]

Y lo he olvidado siempre màs.
[e eu sempre ignore]

José Agustin Goytisolo




E eu, qual o meu lugar?
Eu que não tenho nem plumas, nem peles, nem espinhas... eu que sou, pela minha aparência, da raça dos sangradores. Como eu gostaria de agradá-los, como eu queria que eles me aceitassem, eu fingi acreditar na fábula das duas metades. Eu sabia, tanto quanto eles, saborear o gosto do assassínio e sabia rir espalhafatosamente dos cadáveres deliciosos. Mas, estar com eles custa muito caro.

Gostaria ainda assim que eles me amassem e gostaria de poder amá-los, mas vejo claramente que eles esmagam com sangue frio aqueles da outra metade, dos quais também faço parte. Nunca mais estarei do lado dos carcereiros. No dia da grande festa, se apenas existirem dois campos, escolherei o outro lado.



Tirem-me as vísceras como fazem com os esturjões ainda vivos. Explodem meu fígado, como o fazem com o dos patos. Arranquem meus testículos, como o fizeram com os outros animais que foram capados. Esquartejem-me, como fazem com as rãs. Fervam-me, como as lagostas são fervidas. Que dentes sorridentes coloquem minha carne em farrapos como aquela dos outros perus, bezerros, cordeiros e salmões.



É realmente necessário escolher entre o pior e o pior? Reunir-se aos supliciados que agonizarão abandonados de todos; ou bem aos assassinos que, risonhos, lambendo os beiços, apontam para o matadouro?

Não, não, não, não!
Eu denuncio
Denuncio a mediocridade e a covardia de desprezar os outros para assim se assegurar de sua própria importância. Denuncio o espírito comunitário que é construído tendo como base a exclusão. Podemos criar laços de formas diferentes, sem termos que ser cúmplices dos mesmos crimes. Esqueçamos o odioso mito do mundo dividido em duas metades, esqueçamos a sinistra máquina que fabrica a infelicidade.

Quero que existam, de verdade, os Papais Noéis gentis, a paz sobre a terra e a fraternidade. Que possa florescer o calor animal e a alegria de existir de porquinhos brincalhões, de patinhos amorosos e de seres humanos risonhos.

Para todos nós, os animais, a vida pode ser mais bela. Que, enfim, a verdadeira festa comece,
a festa sem sacrifício!



CAHIERS ANTISPECISTES DE LYON 

CA n°22 (fevereiro 2003)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A VITAMINA B12 NA ALIMENTAÇÃO VEGANA

Anti-especismo prático: a vitamina B12 na alimentação vegana

Marco Lorenzi

Tradução: Anna Cristina Reis Xavier; revisão: Genevive de Oliveira Moreira

A maior parte dos leitores dos Cahiers sabem que, do ponto de vista ético anti-especista, não há alternativas realmente aceitáveis e concretamente praticáveis para uma alimentação vegana. Sabe-se que os produtos lácteos e os ovos, ao contrário do que pensam os especistas e alguns anti-especistas, estão ligados à morte, ao sofrimento e à coisificação dos animais que são necessários para a produção destes alimentos. Ainda que a alimentação vegetariana seja um passo a mais rumo a um modo de vida coerente com o anti-especismo, ela não evita a exploração dos animais não humanos pelos animais humanos.
As pesquisas científicas relativas ao setor da nutrição confirmam que se a alimentação vegana for corretamente equilibrada, ela pode perfeitamente satisfazer as necessidades nutricionais humanas, acrescentando ainda benefícios não negligenciáveis com relação à alimentação seguida pelas populações dos países industrializados. Isso não significa que seja suficiente eliminar os ovos e o leite para nos alimentarmos de forma equilibrada. Para se alimentar corretamente, um vegano deve possuir algumas noções de dietética, para não correr o risco de sofrer carências de certos micronutrientes.
O micronutriente mais crítico para os veganos é a vitamina B12, pois ela não está presente nos alimentos vegetais. Hoje em dia ela se encontra apenas nos alimentos de origem animal (inclusive nos ovos e no leite). Ela é produzida por certas bactérias que se encontram geralmente presentes na terra e no intestino de todos os animais. Todavia, os homens, diferentemente dos herbívoros, não são capazes de assimilar a vitamina B12 produzida pelas bactérias de seu intestino.
Vários veganos acham que certos alimentos como leveduras alimentares, o levedo de cerveja, o germe de trigo, os grãos germinados, certos derivados da soja como o tempeh, os champignons ou certas algas (como a spirulina) garantem uma porcentagem suficiente dessa vitamina. Infelizmente não é verdade, trata-se de uma convicção oriunda da leitura de documentários ou livros de nutrição já antigos ou mesmo até recentes, mas que possuem informações científicas ultrapassadas.Anteriormente, os métodos de análise química não eram capazes de distinguir entre a vitamina B12 e outras substâncias análogas, mas desprovidas de atividade no organismo humano e que estavam presentes nos alimentos que citamos acima. Por esta razão, era impossível distinguir os alimentos que realmente continham esta vitamina dos que continham apenas seus análogos.
Teoricamente a vitamina B12 poderia estar presente em todos os alimentos vegetais não lavados, através de uma contaminação bacteriana causada por resíduos de terra; antigamente, quando as condições higiênicas eram piores, tal contaminação acontecia. Entretanto, hoje em dia, é praticamente impossível encontrarmos a quantidade essencial necessária desta vitamina em qualquer produto vegetal, ou nas algas, que possuem quase que exclusivamente análogos desta vitamina
As conseqüências da carência prolongada desta vitamina podem ser gravíssimas: os primeiros sintomas são o cansaço, a dificuldade de concentração, os problemas de memória, as tremedeiras, os formigamentos, os problemas gastro-intestinais, a insônia, a sonolência, a depressão, a irritabilidade, etc. Se estes sintomas de origem neurológica forem negligenciados, corre-se o risco de ter uma grave degenerescência das bainhas de mielina que cobrem os nervos; esta degenerescência é, na maior parte dos casos, irreversível, podendo levar à paralisia ou a outras formas de demências.
Além disso, uma carência prolongada provoca um aumento da homocisteinemia e um risco de patologia do aparelho cardiovascular.
Na falta de um suplemento alimentar, as reservas da B12 que estão presentes no fígado podem durar em função dos hábitos alimentares do período que precedeu a escolha do veganismo. As reservas podem durar de um até cinco anos, ainda que os sintomas acima descritos possam ocorrer tardiamente ou simplesmente não ocorrer, ou ainda que a carência seja revelada através do exame de sangue (medida da vitamina B12 do sangue, do ácido metilmalônico do sangue e da urina e da homocisteinemia).
É claro que os riscos potenciais são graves, mas, felizmente, existem duas soluções que conciliam ética e saúde.
A primeira (que é a mais aconselhável) consiste no uso de suplementos. Há suplementos que não estão classificados como sendo remédios e, por isso, não são testados em animais, não são produzidos pelas multinacionais farmacêuticas e não possuem derivados de origem animal (atualmente, a vitamina B12 dos suplementos é quase sempre produzida através de culturas específicas de bactérias). Estes produtos podem ser encontrados em farmácias de manipulação de ervas, em lojas de alimentação natural e outras farmácias.
A dosagem normal é de 2 à 4 microgramas, mas é recomendável que se use pelo menos 10 (não foi sinalizado nenhum efeito secundário de hiper dosagem até 3 000 µg e mais por dia). É possível concentrar as doses tomando um comprimido de pelo menos 1000 µg duas vezes por semana, pois a assimilação desta vitamina se reduz drasticamente quando as quantidades são altas. Por outro lado, é desaconselhável tomar estes suplementos menos de uma vez por semana.
A segunda solução consiste em utilizar regularmente e quase que todos os dias alimentos vegetais enriquecidos com essa vitamina (como os hambúrgueres vegetais, sucos de fruta, biscoitos, leites de soja, etc.) lembrando de suprir as necessidades de acordo com a dosagem recomendada acima. O problema desta segunda solução é que encontramos poucos produtos veganos enriquecidos com B12 no mercado francês e geralmente o teor da B12 é muito baixo, o que impede que se atinja a taxa necessária de reposição para o organismo.
Já escutei vários anti-especistas afirmarem que se tornaram veganos para salvar os animais do abatedouro e que não estão preocupados com a saúde, por isso não se importam com a falta da B12, pois têm coisas mais importantes para fazer. A abnegação destas pessoas é admirável, mas a miopia também: seria realista tentar convencer outras pessoas a seguirem um tipo de alimentação realmente não violenta como o veganismo quando não podemos ser um exemplo aceitável para o outro? Em outros termos: apenas demonstrando que é possível sermos veganos sem destruirmos nossa própria saúde é que poderemos persuadir outras pessoas. Ora, todos os dados científicos dos quais dispomos até hoje indicam que, pelo menos durante um longo período, não é possível ficarmos sem ingerirmos B12 sem causarmos graves problemas para nossa saúde e, por extensão, para a causa anti-especista.
Especificamente para a França
É possível encontrarmos suplementos da B12 nas farmácias (por exemplo a marca Vitarmonyl) mas os que encontramos na França, ainda que mencionem o fato de "serem convenientes aos regimes vegetarianos e veganos" possuem derivados de corpos de animais, sobretudo os estereatos, como vários outros remédios (ver, por exemplo:http://www.snip.fr/actualite/ESBpres.htm). A única solução perfeitamente vegana é a de comprarmos a B12 no exterior, particularmente na Grã Bretanha.
Citemos como exemplo os suplementos da marca Quest Vitamins; o frasco de 60 comprimidos de 500 µg custa uma dezena de euros e é suficiente, teoricamente, para uma pessoa por dez anos! Podemos também encomendar por correspondência ou pela Internet no The Positive Health Shop (52 Tydeman Road, Portishead, Bristol, BS20 7LS Royaume Uni:http://shop.positivehealthshop.co.uk).
Para quem vai à Inglaterra, a rede de lojas dietéticas Holland & Barrettvende sua própria marca (dosagens 50, 100, 250, 500, 1000 µg, claro «convém para vegetarianos e veganos») a preços interessantes (se não levarmos em conta o preço da passagem de trem ou de avião...).
Para tais comprimidos que possuem uma forte dosagem (um comprimido de 500 µg é amplamente suficiente para uma pessoa durante dois meses) um método interessante pode ser o de moer o comprimido e de misturar o pó obtido com um ou vários produtos de consumo cotidiano (açúcar, sal, levedura alimentar...).
Alimentos enriquecidos
Geralmente as doses são menores, mas muitas vezes dentro do patamar aceitável. Nos exemplos seguintes, indicamos entre parênteses a quantidade necessária do produto para se obter 1 µg da vitamina, que é a dose cotidiana considerada como sendo a mínima necessária.
Leite de soja Gerblé (1/2 litro); diversos tipos de cereais usados no café da manhã; suco multivitaminado cocktail de 12 sucos de frutasSolevita/LIDL (1/5 litro); suco de frutas Wesergold multivitamines (2/3 de litro); Marmite (7 gramas).
A redação

PORQUE EU NÃO SOU ECOLOGISTA!

Porque eu não sou ecologista

David Olivier

Desenhos de Doudou
Traduzido por Anna Cristina Reis Xavier; revisado por Vegan Staff.

Propusemos este texto em outono de 1988 para a revista ecológicaSilence... que o recusou alegando-nos que este exprimiria apenas «uma determinada visão do mundo». Na França, éramos um pequeno grupo de militantes da causa que ainda não se chamava libertação animal, e nós pensávamos que o movimento ecologista – reputado pela sua «abertura de espírito» e do qual alguns de nós nos sentíamos próximos – fosse capaz de suportar tal debate. Face à censura e à violência das críticas, tivemos que desistir.
Na França, recentemente a ecologia foi atacada de forma bastante violenta e com sucesso, pois existe um certo público que alimenta o ressentimento antiecologista por desejar continuar poluindo sem limites. Espero que o leitor saiba fazer a diferença entre estes ataques e os meus. Eu atribuo uma grande importância à preservação da qualidade do meio ambiente na medida em que ela é necessária à vida, à felicidade dos seres sensíveis que o habitam. Mas não atribuo ao meio ambiente nenhum valor em si, não vejo nas «leis naturais» nenhum imperativo – elas são apenas enunciados de situações mais ou menos modificáveis. Até hoje, todas as ações de grande escala de intervenção no meio ambiente, foram motivadas pensando-se no bem dos seres humanos – quase jamais no bem dos demais «usuários». Isso não implica em que a idéia de modificar a «Natureza» seja rejeitável, quando o objetivo for determinado levando-se em conta eqüitativamente os interesses de todos. Tais ações não são preocupações fundamentais atualmente, mas este debate me parece importante pelo menos no tocante ao plano dos princípios, pois a veneração pelas «leis naturais» é, em minha opinião, um obstáculo maior face às idéias da libertação animal.
Após ter circulado de mão em mão, este texto foi publicado na revista de Nantes Le Farfadet. Mesmo que, sob alguns aspectos, o texto tenha sido «datado», o reproduziremos aqui com algumas pequenas modificações formais – pois se eu começasse a reescrevê-lo, não poderia dizer quando terminaria.
D.O.
Em geral, parece-me que os ecologistas divinizam a natureza e, ao mesmo tempo, fazem dela uma idéia medíocre e petrificada.
Surpreende-me ver como poucos participantes de movimentos alternativos na França deram o passo e pararam de consumir carne. Comer carne é ordenar o abate de um ser sensível que vive e que dá todo valor ao único bem que a que ele pode dar; ao único bem que ele possui: sua vida.
Eu me oponho aos ecologistas pois, para eles, a raposa que come a lebre é algo bom, enquanto isso preservar o «equilíbrio natural», enquanto eu, vejo o sofrimento da lebre. Para achar isso «bom» é preciso ter o espírito fechado e ser cego para não notar o que na realidade isso representa. Os ecologistas somente enxergam na natureza as espécies; sem a intervenção do homem, estas espécies variam pouco, pelo menos visivelmente falando; a impressão de estabilidade que daí resulta proporciona um vago sentimento de repouso, de segurança; e eles falam então de harmonia da natureza.
A tortura é permanente na América Latina, e por causa disso seria ela harmoniosa? Os ecologistas acham bom que a raposa mate a lebre porque isso preserva uma ordem. A tortura também preserva uma ordem.
Jean Dorst, naturalista renomado:
Aqueles que desejam abolir a caça freqüentemente não têm muita consciência do fio estreito que une a vida e a morte. É então necessário julgar sem nenhum sentimentalismo a caça e considerá-la como uma atividade «normal» e como a exploração legítima de um capital natural para o benefício e a satisfação esportiva do homem1.
.
Vários ecologistas pensam assim. Entretanto esta atitude mostra um imenso desprezo pelo citado sentimentalismo; quer dizer, contra a compaixão por seres que nos são próximos, pois acreditam que devemos fechar os olhos para os sofrimentos daqueles que denominamos «animais»; enquanto que a lógica científica, assim como o simples bom senso, insistem que nós também sejamos denominados como animais.
Freqüentemente, os ecologistas não gostam da caça. Geralmente, e eu tenho certeza, por causa da antipatia que sentem pelo prazer de matar. Mas quando o confronto ocorre, apenas um ponto é questionado: os caçadores degradam ou não a natureza? A simpatia pelos animais é colocada em surdina, como se este sentimento causasse vergonha. Assim, certos ecologistas tornam-se aliados com os «bons» caçadores ou, com maior freqüência, com os pescadores (essas pessoas pacíficas que, depois de terem furado uma minhoca qualquer, um bicho inferior, sufocam o peixe que ainda treme e rasgam a carne de suas goelas). Para os ecologistas, são «bons» caçadores ou pescadores, quando preservam o equilíbrio natural.
Este cartaz, que apresenta uma raposa segurando um camundongo entre os dentes é obra dos «Amis des Renards et Autres Puants» (ARAP – Amigos das raposas e outros fedorentos), ou seja, ecologistas que se apresentam como «amigos» de (certos) animais. Com a finalidade de incitar os caçadores (humanos) a não mais matarem as raposas, a ARAP saúda cada um deles «que protege a natureza e respeita os outros caçadores». A idéia de que a predação poderia ser uma realidade funesta nem lhes passa pela cabeça.
Antes pelo contrário, os ecologistas são, freqüentemente, fascinados pela predação. Os animais com os quais mais se preocupam são os predadores (raposas, lobos, linces, aves de rapina...). É raro que um programa na TV, sobre a natureza, não mostre cenas sangrentas – mas tão belas – de leões caçando gazelas. Os manuais de ecologia privilegiam o estudo das «cadeias tróficas» – enquanto que os animais fazem outras coisas além de se alimentarem.

O «equilíbrio natural»

Preservar, equilíbrio, natural: o credo ecologista. Mas, imaginem, a «natureza» nunca foi equilibrada:
a) A natureza é o todo, a realidade. Homo sapiens faz parte da natureza. O cimento armado, o carro, as centrais nucleares, tudo é natural.
Se o homem tem, sem dúvida, e em um sentido mal definido, uma inteligência superior a todas as outras formas de vida, é uma particularidade natural. A lebre corre mais, o ser humano raciocina melhor, e, caso ele destrua o planeta, nada mais seria do que o resultado da evolução natural.
Isso não altera nada da nossa capacidade de escolha. Podemos ser contra os automóveis, as centrais nucleares e o consumo de carne não pelo fato de eles não serem «naturais» mas por causa do sofrimento e da morte que provocam. Faço parte da natureza e qualquer escolha que eu fizer será instantaneamente natural. A natureza não me dita as minhas escolhas.
Quando digo que somos animais, eu não evoco uma «parte animal» que existe em nós. Nós somos 100% animais. Também somos 100% humanos. E isso não faz 200%, assim como se eu disser que a água é 100% um líquido e a 100% um composto de hidrogênio.
b) A natureza, com o homem ou sem ele, não é equilibrada. Ela é o reino da harmonia e da dissonância, da continuidade e das transformações lentas ou catastróficas, da memória e da inovação. Ela é o reino da adaptação e da inadaptação.
Todo ser vivo pluricelular morre um dia. Um órgão minado pelo tempo para de funcionar, o organismo se envenena com suas próprias toxinas, os pulmões param, os órgãos sufocam; os músculos ficam sem oxigênio e produzem ácido lático. Para sobreviver. Que bela adaptação à situação. Tudo morre na ruptura do equilíbrio, o pânico. O sangue da lebre estraçalhada pela raposa tenta coagular para curar as chagas de uma pele que está sendo digerida. Onde está a harmonia?
A «Mãe Natureza», que tudo prevê, não previu nada para a morte. Salvo a exceção de que, o que acontece a um animal quando ele morre, não tem nenhuma influência no futuro de sua espécie. Ao longo do tempo não ocorreu nenhuma adaptação fisiológica a esta situação. Como um animal morre, isso não interessa mais à «Mãe Natureza», que, entretanto, previu a morte em sua ordem. Que ele se vire, em seu sofrimento ou na tranqüilidade, o importante é que morra, pois não serve mais para nada!
A harmonia, para a lebre, se encontra talvez em suas longas patas traseiras que lhe permitem, com freqüência, escapar da raposa. Mas a sobrevivência da espécie da raposa ao longo das eras atesta os limites desta harmonia.
A adaptação dos animais a seu meio ambiente é bem relativa. No verão as andorinhas vêm para a França a fim de comerem insetos voadores, faz calor e o ar é seco. Mas, quando chove durante vinte dias sem parar? Elas não conseguem se alimentar e morrem aos milhares. Seus filhotes também, de qualquer maneira, mesmo em condições «normais», poucos são os destinados a sobreviverem mais que alguns meses.
As mudanças climáticas são um fenômeno constante. As glaciações do quaternário destruíram grande parte das espécies de plantas e animais europeus.
Diferentes tipos de plantas crescem em solos e sob climas diferentes. A agricultura «orgânica» deseja «respeitar a natureza», oferecendo a cada planta suas «condições naturais». Com efeito, na natureza, raras são as plantas que crescem em suas "condições ideais". Elas crescem lá onde podem, até o extremo limite das regiões onde podem sobreviver. As plantas raquíticas e defeituosas são um fato da natureza. Além disso, a noção de «condições ideais» não faz sentido. Fundamentalmente, um cactos tem tanta necessidade de água quanto qualquer outra planta. Ele não é «bem adaptado» ao deserto, ele é menos mal adaptado do que outras, e ele se instalou no deserto por causa da menor concorrência que aí encontra. Em segundo lugar, ele pode ter perdido suas defesas, contra, por exemplo, os mofos, pouco virulentos em meio seco; o resultado é uma planta que sofre permanentemente de sede e é incapaz de viver em meio úmido. Um inadaptado por natureza.
A natureza, é a inovação contínua. Na Inglaterra, as raposas, expulsas dos campos, se instalaram nas cidades. Nos campos, elas cavavam tocas. Na cidade, elas se viram. Você acha que o instinto que lhes levava a cavar tocas tenha desaparecido? Para sobreviver, elas vão contra seus instintos. A primeira causa de mortalidade é, massivamente, o atropelamento por carros. A espécie prolifera? Vá ver a harmonia, vá olhar os cadáveres esmagados (não é preciso ir longe, aqui na França temos os pombos e os gatos)!
O homem destrói a fauna e a flora; há, se não me engano, uma espécie a menos por dia. Fenômeno novo, escandaloso, contra a natureza? Quando a deriva dos continentes uniu a América do Norte à do Sul, uma boa parte da fauna sul americana foi exterminada pelos predadores vindos do norte, que ela não conhecia. Fenômeno talvez detestável, mas antinatural?
A natureza evolui indo contra o natural. As raposas e os ratos nas cidades, as vacas homossexuais, os pássaros ingleses que tiram as tampas das garrafas de leite deixadas pelo leiteiro, são antinaturais. A lebre que corre para escapar da morte também vai contra sua preguiça, contra a parte de sua natureza que é hostil ao esforço.
Tenho dores nas costas, porque os ancestrais do homem agiram «antinaturalmente» e ficaram em pé.
Eu não nego inteiramente a harmonia natural. Ela existe pela força das coisas. Os peixes possuem brônquios, e vivem debaixo da água. É bom, é adaptado, é harmonioso, mas essa harmonia não me conduz a nada. Nenhum animal «obedece» à natureza. Se ele tem instintos é porque ele é assim, ele não obedece a seus instintos. Não há um deus-peixe que comande o indivíduo peixe. A natureza não obedece à natureza, ela é a natureza.

As leis naturais

Eu não nego as especificidades do Homo sapiens, pois é uma espécie. Elas são para mim coisa importante. Eu posso ir contra meus instintos, contra uma parte de mim mesmo. Eu posso escolher. Eu creio que todo ser vivo escolhe, em um sentido, pois nele há contradições. Mas o homem o faz de modo mais claro. Amarrar-me a um deus-natureza, seria também ir contra minha natureza.
Gosto muito da natureza, quer dizer, da realidade. Amo a vida, que faz parte desta realidade, amo o prazer e a felicidade e também amo a felicidade alheia. Para mim o porco é um animal totalmente simpático. É insuportável pensar o que fazem com esses seres enquanto são criados e nos abatedouros. Que desperdício! Que inconsciência reduzir um ser sensível a pedaços de carne! E isso pelo pequeno prazer de comer carne!
Para mim isso é escandaloso, se eu achar ou não o animal simpático, se ele for ou não inteligente, bonito ou não; eu não reduzo a natureza a minhas simples afinidades pessoais.
Eu não acredito nos vegetarianos que dizem que comer carne não é algo natural. Parece-me provável que o homem, através da evolução, tornou-se adaptado para comê-la. Isso não muda nada, pois podemos viver muito bem sem comer carne.
Eu amo muito a natureza, amo o que ela traz: a vida, o prazer, e não gosto do que ela tira: o sofrimento, a morte. Eu amo os gatos e os ratos.
Eu não gosto da caça porque não gosto que matem as perdizes. «Sentimentalismo», diz Jean Dorst? Não, mas a consciência do valor da alegria da vida da perdiz.
Tenho plena consciência da existência da morte. Quanto ao «fio estreito» entre a vida e a morte do qual fala Jean Dorst, com uma conotação um pouco mística, realmente eu não o vejo, eu apenas constato que todo ser vivo pluricelular morre um dia, eu lamento, mas até hoje eu não posso fazer nada contra isso. Assim como não posso fazer muito contra a fome no mundo. A fome é, talvez natural, mas não vou, por causa disso, pegar um fuzil para matar quatro ou cinco etiopianos para meu benefício e minha satisfação esportiva. Este benefício e esta satisfação esportiva são coisas bem sérias, aos olhos de Jean Dorst. Eu não as desprezo, todo prazer para mim é algo sério. Mas que desprezo ele e tantas pessoas mostram em relação a tudo que não corresponde a uma atividade humana produtiva, institucionalizável, econômica! Sentimentalismo! Jean Dorst é um homem sério. Um general também e o soldado que não quer matar o soldado «inimigo» demonstra sentimentalismo.
Jean Dorst tem razão ao dizer que a caça é uma atividade normal. A predação e o câncer também – mesmo se o fato desagrada aos místicos da natureza – existem há milhões de anos.
Eu não sou ecologista, porque não estou de acordo com a preservação do «equilíbrio natural». Eu já disse que não acredito, como eles, neste equilíbrio. E acredito que o que existe é bom, mas desejo que seja ainda melhor. Aqueles que têm um câncer desejam viver, mesmo se vivendo podemos ter um câncer.

Um problema de ética

Se vivermos sem questionar muito as coisas, podemos criar uma ética simples, mesmo que ela não se fundamente em nada. A ética pode ser a de ir à missa e de voltar para casa para dormir tranqüilamente. Pode ser a de seguir as leis, a de ser um bom comerciante e de vender as laranjas da África do Sul sem roubar os fregueses. Pode ser a de tentar seguir as «leis da natureza», depois de tê-las inventado, assim como criamos Deus.
Eu não tenho uma ética simples. Minha ética é baseada na busca da felicidade, no fato de evitar a infelicidade. Eu creio que esta é a única base séria para uma ética. Mas não sei muito bem o que é a felicidade ou a infelicidade. Sei claramente que estas palavras têm um sentido para mim e os outros humanos, e não duvido que também tenham para as vacas e os peixes. Acho que têm também um sentido para as lagostas e os insetos, e não sei se têm para as plantas.
É fácil ter uma ética que, em vez de questionar as coisas difíceis a serem mudadas, decide classificá-las como sendo «boas». A minha moral, eu quero considerá-la como construída sobre coisas reais; a alegria e o sofrimento são para mim coisas reais, como a água ou as pedras, mesmo que a física atual não as conheça. Eu não quero, então, por convenção, classificar qualquer coisinha de «boa». E isso implica também o fato de viver na inconstância, na insegurança ética. É bom o fato de matar uma cobra, para salvar um grande número de rãs? Mas as rãs comem tantos insetos... Estes últimos se devoram entre si ou fazem mal para as plantas. Eu não sei se elas sofrem, se elas têm dores quando se sufocam reciprocamente, se envenenam, fazem sombras umas para as outras. Em muitos casos, eu não sei dizer o que é justo. Ou então, o que é justo é muito difícil de ser assumido: a cada passo que dou, arrisco de matar formigas. Talvez eu deveria suicidar-me para salvar as formigas? Não o farei.
Isso não impede que existam coisas simples que possamos fazer. Não comer carne é uma delas. Mas em minha incoerência infalível, aceito a crítica dos comedores de carne que freqüentemente me perguntam «Mas você come as plantas, elas também são seres vivos» e isso sempre dito por pessoas que não se preocupam nem um pouco com o destino dos animais e das plantas. É verdade que é muito mais fácil, muito mais coerente ser 100% canalha do que um canalha pela metade.
Pergunto-me como é possível que com uma ética baseada na «ordem natural das coisas», «a harmonia sendo resultante da competição e da seleção», a maior parte dos ecologistas seja de esquerda, socialmente progressista. A ecologia à moda de Pétain, à moda de Hitler me parecem mais lógicas. Um(a) ecologista homossexual escutará freqüentemente o comentário: «mas... a homossexualidade, é algo contra a natureza!» Alguns responderão que o homem, não é como a natureza; pois ela continua, em seu espírito, sendo o campo do imobilismo, das «leis naturais» às quais é necessário obedecer, um campo finalmente muito pobre, onde a liberdade não existe, apesar de sua diversidade impressionante.
Quando eu renuncio a criticar alguém é que, no fim das contas, o desprezo. A gente se pergunta se os ecologistas respeitam a natureza ou se estão sobre seu domínio. Não renunciei a criticar a natureza. Eu a estimo muito mais do que a maior parte dos ecologistas.
Em geral, os ecologistas são progressistas, mas sua adoração pela natureza deixa traços profundos. Sem falar da tendência deep ecology(«ecologia profunda»), pela qual (eu acho) a França foi pouco atingida (é a ecologia que acha que devemos deixar os etiopianos morrer em nome do equilíbrio natural), basta examinarmos o tratamento dado à imigração pelo programa do partido Verde francês «lamentando» (eles são contra a abertura das fronteiras, e isso por razões sociais, econômicas, etc.). Podemos logicamente deduzir que eles seriam a favor das expulsões das pessoas que entraram no território, a favor dos controles de passaporte e da «carte de séjour» (documento que controla e permite os estrangeiros viverem e trabalharem em solo francês), etc. Tudo isso, porque, são servis às «leis sociais», às «leis da economia», não enxergam que nada pode justificar a discriminação das pessoas por causa do lugar onde estas nasceram. Chegam a afirmar que desejam esta proibição visando o bem das pessoas, assim como um número da revista La Hulotte qualifica não sei mais qual médico predador pela sua vítima, sem parecer estar consciente do cinismo que isso representa.
…Os ecologistas estão cegos no nível humano por causa das «leis da sociedade» assim como estão cegos por causa das «leis da natureza».

Possibilidades de ação

Na Inglaterra há mais de três milhões de vegetarianos. Pelo que eu saiba Silence nunca falou disso. Uma boa parte dessas pessoas têm como motivação principal recusar a violência cometida contra os animais. Os movimentos alternativos franceses acham natural falar de convivialidade, de outras relações humanas, imaginando friamente que, em uma sociedade ideal cada um mataria seu leitão, crescido de forma orgânica e descentralizada. Enquanto isso, eles comem bezerros criados em indústrias, ainda que continuem sensíveis ao problema dos hormônios, pois poderiam ameaçar a saúde, ou ainda compram seus coelhos orgânicos na cooperativa orgânica da esquina.
Na Inglaterra e na América do Norte há poderosos movimentos de anti-vivissecção, há a ALF (Animal Liberation Front), e grupo anti-vivissecção. A imprensa alternativa francesa se desinteressa completamente deste assunto. Entretanto parece que um pequeno movimento começa a se desenvolver na França: o FLA, e o grupo que recentemente liberou os cães da INSA de Lyon também existe.
O sofrimento que o homem impõe aos animais é, também, com efeito, a vivissecção, esta tortura cotidiana que acontece nos laboratórios. Sou contra, mesmo quando ela traz um benefício real ao homem. Se me demonstrassem que através do sacrifício de um gato poderíamos salvar milhões de pessoas da AIDS, eu hesitaria, sem dúvida; mas não é nisso que o problema se baseia. Sem falarmos da experimentação militar (os testes feitos com os gazes de combate), que é fácil de ser condenada, constato que todas as experimentações feitas com animais são feitas para a conveniência e o benefício dos humanos; se eles querem um tal medicamento anti-cancerígeno, porque seria anormal que assumam o risco de testá-lo em si próprios? Se os seres humanos estão suficientemente motivados em ter um adoçante artificial para suas bebidas gasosas, por que não arriscam um pouco sua própria saúde, sua própria pele para obtê-lo? Em vez de condenar à morte e ao sofrimento os camundongos que, a priori, não têm nenhuma vontade de se entupir de ciclamato. Eu não nego o caráter de várias experimentações humanas, freqüentemente realizadas sem o consentimento do outro, mas como podemos achar menos escandaloso o sacrifício cotidiano de milhões de animais por grandes ou pequenas causas que nada têm a ver com suas vidas, e que são feitos com experimentações covardes, encorajadas por um público covarde que não ousaria sofrer nem mesmo dez por cento do que impõe a outros seres.

As barreiras que tranqüilizam

Talvez vocês tenham compreendido: coloco no mesmo nível a vida de um ser humano e a de um animal. A vida humana, para mim, não possui nada de particularmente sagrado… Nada mais, em todo caso, do que o prazer de beber uma bebida com gás. A vida é feita de pequenos e grandes prazeres e desgostos e, arriscamos nossa vida e também a dos outros porque consideramos mais cômodo andarmos de carro. Arriscamos nossa vida pelo prazer de fumar. Mas colocar no mesmo nível a vida de um animal e de um ser humano! Que escândalo!
Na verdade, temos medo. Este «caráter sagrado» da vida humana aparece como uma conquista, uma garantia contra o nazismo, contra a «eutanásia» imposta, contra as execuções, etc. Que garantia eficaz! O automóvel: 11000 mortos por ano na França, freqüentemente vítimas completas de uma escolha que outros fizeram por puro utilitarismo. No tempo de guerra, este «caráter sagrado» parece, de repente, ser relativizado. Sem falar das fomes mais ou menos programadas e que até deixam as pessoas bem indiferentes.
A «nova direita» francesa teve problemas em parecer como a campeã da liberdade de pensamento, face à quantidade de bagatelas às quais as pessoas «da esquerda» se fixam com desconfiança. Ao revisionismo responde-se com uma tentativa de proibir examinar contraditoriamente à história; à tortura proíbe-se o exame dos direitos dos homens... À vivissecção alguns respondem acenando com os «direitos dos animais», noção absurda, não apenas porque a idéia de direito me parece ela mesma absurda – eu não vou discutir isso aqui – mas, enquanto acharmos normal que a raposa coma a lebre, em que consiste o direito da lebre? Alguns esboços dos «direitos dos animais» lhes proporcionam o direito de serem abatidos humanamente!
Para explicar porque sou contra o nazismo ou o racismo, preciso de mais palavras do que se eu lançasse um slogan sobre o «caráter sagrado da vida humana». Minha explicação parecerá talvez mais longa e mais complicada, talvez menos evidente. Azar. Mas qual foi a eficácia do tabu que lançamos sobre o racismo durante anos? Hoje em dia este tabu cai por terra. Se ele limitou ou atrasou os estragos, melhor ainda, mas parece-me sobretudo que tenha evitado às pessoas «da esquerda» de refletirem.
A distinção fundamental que fazemos entre os homens e os outros animais tranqüiliza. Cada um em seu devido lugar nesta sociedade, cada um é reconhecido, tem sua carta de identidade, é protegido pela lei. Presume-se que essas leis garantem que nem mesmo o pior mendigo seja tratado como um cão. A segurança trazida pelas normas sociais, tem, apesar das aparências, pouco a ver com a segurança física. Temos mais medo, em nossa sociedade, de nos tornarmos fora da lei, de perdermos a «segurança social», ou a aposentadoria, do que morrer dentro das normas em um hospital. Se as pessoas têm mais medo de serem atacadas na rua do que morrerem em um acidente de carro, é porque têm medo de se encontrarem face a face com alguém que não respeita as normas, e de não saberem como devem se comportar nesse caso.
Devemos aceitar viver na insegurança intelectual e ética. Não por prazer, mas porque o mundo é cruel e desconhecido e porque devemos ser honestos. Atualmente não tenho nenhum ideal imaginável a propor. O fim do capitalismo, uma sociedade igualitária, convivial, mesmo que habitada unicamente por vegetarianos, isso não significa muito para mim enquanto no reino animal existirem lebres mortas por raposas.

A boa consciência ecológica

Face à destruição do meio ambiente pelo homem, os ecologistas se agarram ao mito da preservação da Mãe Natureza. Eu fico revoltado com o extermínio das raposas; isso pode parecer contraditório com minha revolta contra o que as raposas fazem com as lebres. E aqui tenho um problema que não sei resolver. E tenho muitos outros, mais difíceis ainda. Porque eu deveria, pelo fato de chamar um problema um problema, ter a capacidade de propor uma solução, se possível imediatamente? Ninguém ainda conseguiu a cura para a Aids, isso não impede que sejamos conscientes que a aids é um problema e que procuremos soluções.
Mas isso amedronta. Se vamos contra a ordem da natureza, até onde chegaremos? Por medo, decidimos que a natureza é o bem. Por definição. Minha atitude é realmente perigosa, tenho a consciência disso. Não quero transformar o universo em um mundo planificado, regrado pelo homem. A alimentação sintética para as raposas, a contracepção para as lebres, esse tipo de idéia me agrada apenas pela metade. Tenho um problema que não sei resolver e tenho poucas chances de encontrar uma solução, ainda que teórica, enquanto eu for (quase) o único a procurá-la.
A divinização da natureza me parece não apenas estéril, mas algo também um pouco cínico. Poucos ecologistas «seguem» a natureza quando isso lhes atrapalha pessoalmente. Preservar a natureza é uma boa pedida, mas fazer-se predar por um leão, não, muito obrigado! Isso é bom para as gazelas. Pois a espécie delas sobrevive apesar de tudo. Mas, um ecologista a menos, será que isso colocaria em perigo a espécie humana?
A preservação das espécies, sob uma aparência de sabedoria-profunda-ligada-ao-cosmo, freqüentemente esconde uma simples e dura atitude utilitária em relação à natureza. Nenhuma compaixão pela gazela que é um animal bonito a se observar, sendo apenas necessário se assegurar que sempre existam outras. Jean Dorst o diz claramente: a natureza é um capital de diversões para o homem. É necessário preservar os passarinhos: eles protegem nossas colheitas contra os insetos. Abaixo as centrais nucleares: seus lixos passam na cadeia alimentar e através dela até nós. Ninguém pensou em evacuar os coelhos que viviam ao redor de Chernobyl, condenados a uma morte terrível.
«O ser humano em primeiro lugar» dizem os ecologistas, os poderes públicos, quase todas as pessoas. Na Inglaterra, isso recebeu um nome: trata-se do «especismo» (speciesism), como «racismo» ou «sexismo».

Uma outra compreensão da natureza

Acredito, e isso é algo pessoal, que a natureza, quer dizer, a realidade, tem um sentido, ou mesmo vários sentidos. E o sentido que me parece importante, é o desejo tão amplamente difuso de aproveitar a vida. Este desejo deve representar um papel na evolução, mas não se confunde, nem de longe, com a preservação da espécie. Os cervos que se masturbam contra as árvores não estão buscando preservar a espécie.
O único respeito que tenho pela natureza, e este respeito é grande, é o respeito deste desejo de saborear a vida. Isso implica problemas. Mas eu creio que é dirigir-se, se não na direção da natureza, pelo menos em uma de suas direções. A única que me interessa.

Notes :

1. Citado em Que choisir?, número especial «Week-ends, vacances : éclatez-vous», été 1985, rubrique «Chasse».

SENSIBILIDADE DAS PLANTAS

Algumas reflexões sobre
o tema da sensibilidade que alguns
atribuem as plantas

Yves Bonnardel

Tradução: Anna Cristina Reis Xavier;
revisão: Débora Vieira e Carolina Carvalho (Vegan Staff)

Quando abordo o tema da dominação que os humanos exercem sobre os outros animais, e, particularmente, quando falo da carne, muitas pessoas começam logo a falar das plantas de uma maneira agressiva: segundo elas, as plantas pensam, são conscientes, gritam, sofrem ou têm prazer. Geralmente essas pessoas estão com má fé, e fingem se interessar pelo destino das plantas apenas para melhor continuarem desprezando o dos animais. O que fazer nesse caso? Eu poderia colocar em evidência o fato de elas se recusarem a discutir sobre os animais e é justamente isso o que desejam, poderia lhes mostrar que elas não querem levar em conta, de fato, os interesses dos animais.
 E eu também poderia parar de discutir em tais condições. Mas eu posso também me divertir levando em frente o jogo que esses indivíduos armam. Se as plantas fossem sensíveis, isso seria, então, mais um argumento contra a alimentação carnívora - pelo menos em nível lógico. Pois, sendo necessárias de 5 a 10 g de proteínas de origem vegetal para produzir 1 g de proteína de origem animal, parar de comer os animais, mesmo continuando a comer as plantas, reduziria muito os sofrimentos impostos a elas de um fator de 5 a 10, eis um belo argumento... mas que deixa evidentemente impassíveis meus interlocutores que raciocinam sobre esse tema preciso em termos de 8 ou 80, pois na verdade não se importam nem um pouco com o tal sofrimento o qual, com delicadeza, atribuem às plantas. 

Entretanto, se essas mesmas pessoas resolvessem se dedicar ao altruísmo para reduzirem o sofrimento dos homens, apenas se obtivessem um resultado ideal, ou mesmo simplesmente comparável ao que foi acima evocado, elas não fariam mais nada, não ajudariam os países pobres, nem a medicina, nem seus vizinhos, nem a si próprios. Por contraste, isso nos dá toda a extensão do desprezo que sentem pelos seres vivos sensíveis que não pertencem à Humanidade.
Mas há também pessoas que pensam sinceramente que as plantas sofrem ou têm uma consciência, mesmo se forem raras as pessoas que daí tiram conclusões práticas. É para essas pessoas que escrevo este texto, pois sei que se preocupam realmente com a questão.
Pessoalmente, penso que as plantas não possuem consciência, e que não sofrem, não sentem nem alegria nem tristeza. Não se trata de uma crença, quero dizer, de uma verdade revelada à qual me prendo porque me agrada, ainda que me seja mais agradável pensar que as plantas não participam da imensa sinfonia de sofrimentos do mundo. Eu penso assim porque é a hipótese mais plausível que esteja de acordo (em harmonia) com os fatos dos quais disponho e com a compreensão do mundo que eu, pelo menos parcialmente, construí sobre estes fatos.
A primeira razão, que não é pequena, é que não se conhece nenhuma espécie vegetal que possua um sistema nervoso, o que não é de se estranhar, pois a função desse sistema é a de acionar os músculos e igualmente, justamente pelo fato de haver motricidade, de transportar a informação recolhida por diversos receptores. Enquanto ao longo das eras os organismos animais tenderam a uma centralização funcional importante, este não foi o caso das plantas. Tal ausência de centralização (esta autonomia de cada parte em relação às outras, que autoriza, por exemplo, os enxertos) torna a noção de individualidade difícil de ser usada para os vegetais; se as plantas sofressem, poderíamos perguntar o que é que sofreria: cada folha...? 
Devemos considerar um morangueiro e suas mudas como uma só unidade sensível ou como múltiplas unidades? E em que caso e a partir de que momento de seu desenvolvimento? Eles sofreriam juntos ou um só, ou somente as raízes? E a consciência? Eis perguntas que são feitas realmente quando se evoca a hipótese de uma sensibilidade ou de uma consciência, mas que raramente as pessoas fazem. De todo jeito, se podemos dizer que há uma transferência de informação, na medida em que as moléculas se deslocam, interagem em diversos lugares com os receptores da planta, e criam assim efeitos em cadeia, isso não autoriza a afirmar que uma consciência as recolha, as centralize e as «trate». Acredito que muitas pessoas têm dificuldades em imaginar uma vida «vegetativa» das plantas porque nossa própria experiência de animais nos faz associar consciência e sensibilidade à noção de vida. 
Entretanto, até mesmo nos animais, as atividades vitais conscientes estão ligadas à motricidade – o que não é o caso, por exemplo, da respiração ou da digestão; os animais que estão em coma, com encefalograma plano ou estão descerebrados vivem, e isso prova que uma vida não consciente é possível para um ser que não precisa se movimentar para viver. Pois o fato de as raízes se enfiarem na terra ou as folhas se voltarem em direção ao sol não necessita, a priori, mais consciência do que o próprio fato de se desenvolverem ou envelhecerem.
Há um outro argumento que me parece muito forte: não se vê de forma alguma que tipo de utilidade evolutiva haveria no fato de as plantas terem sensibilidade e consciência. No reino animal, elas representam um papel considerável na vida e sobrevivência dos indivíduos, assim como em sua reprodução. A ansiedade, o medo, a dor, apesar de eventuais efeitos perversos (por exemplo, um medo-pânico pode nos jogar do alto de um abismo), levam o animal a reagir: por prudência, com a fuga, através da defesa, o ataque... A sensibilidade e a consciência são vantagens, pois o ser é móvel, portanto pode se deslocar, fugir de um perigo, se curar. Entretanto essas capacidades deixam globalmente de ser úteis quando não é o caso: um animal machucado que se esconde continua a sentir a dor devido a seu machucado, mesmo que a dor seja em vão. 
E, como mostra a existência de indivíduos que possuem um sistema nervoso deficiente e não percebem a dor ou que estão em coma ou sem o cérebro, os ossos se ressoldam, as feridas cicatrizam, o sangue coagula, o sistema imunológico age com toda independência da percepção da dor: esta não oferece nenhuma utilidade, bem ao contrário, pois nos animais a sensação de dor cria um stress que somente é resolvido por uma reação consciente; se não é o caso, esse stress se volta contra o organismo. Ora, as plantas não possuem essa mobilidade1 e, quando essa mobilidade existe, ela continua insuficiente para permitir que as plantas lutem contra uma agressão. Por que então elas adquiririam uma consciência ao longo das eras? E se, apesar de tudo, elas tivessem adquirido uma, por que a teriam conservado?
Porque as plantas não possuem nada que se pareça um pouquinho que seja com um sistema nervoso, porque também não se conhece nelas nada que possa se assemelhar a um impulso nervoso (que transporte a informação a alta velocidade), porque uma consciência ou uma sensibilidade à dor e ao prazer aparentemente não lhes serviria para nada. Podemos até imaginar que atrapalharia sua sobrevivência. Penso que elas seriam «insensíveis» e «mudas», vivas mas «inanimadas». É a hipótese mais simples e a mais plausível. A hipótese inversa suscita problemas e questões de importância que, atualmente, não encontram respostas.
«Mas, me dirão, somos inocentemente antropomórficos por tentarmos procurar nas plantas um sistema nervoso similar ao nosso, ou uma consciência organizada como a nossa, e não é estranho que nada encontremos; mas isso não implica a inexistência de uma consciência "organizada de forma diferente"». O que poderia então ser essa tal «consciência» torna-se assim totalmente indefinido, e não sabemos em que se basearia tal consciência, mas isso não parece perturbar muita gente. Realmente penso que é a nossa vontade de fornecermos uma consciência e uma sensibilidade ao reino vegetal que demonstra nosso antropomorfismo, em vez do contrário. 
Vários livros existentesL'Intelligence des plantes, o La Vie secrète des plantes2 contam anedotas sobre as plantas que sentem as palavras que lhes dizemos e que compreendem, sensíveis à afeição que lhes mostramos, sensíveis à música clássica, sensíveis às infelicidades que afetam os seres humanos com os quais vivem, capazes de gritar, ficarem emburradas, de contar... Em nenhum dos livros que li encontrei referências corretas às experiências mencionadas, que me permitissem citar os trabalhos originais e, a fortiori, reproduzi-los. O que já é algo suspeito, com efeito, a certeza com a qual o relato da experiência é feito é tido como prova da veracidade do fato3
O tom é invariavelmente rigoroso (ainda que humorístico e jovial), e o estilo e os termos científicos, mas as conclusões não possuem argumentações convincentes nem mesmo lógicas ou plausíveis. Esses textos tentam parecer bem argumentados, mas fazem apelo à credulidade, à cumplicidade ativa e à vontade de acreditar do leitor. Os resultados das experiências descritas tornam-se inacreditáveis a partir do momento em que examinamos um pouco mais os detalhes e que tentamos determinar o que esses resultados implicam na realidade. Assim, nos dizem que as plantas até se alegram quando escutam música clássica (mas não quando escutam rock, pois este não é seu gênero musical...). Ora, até entre os humanos, a maneira como uma música é sentida varia consideravelmente de acordo com as civilizações, e mesmo de acordo com as classes sociais no seio de uma mesma cultura. Imaginando que pudéssemos viajar no tempo, podemos imaginar a indignação e incompreensão das pessoas do século XIX se lhes fizéssemos escutar rock, blues ou jazz! Apreciar uma música, considerá-la harmoniosa não é algo espontâneo, mas depende de uma cultura musical. E as plantas apreciariam de cara Bach ou Brahms e não Berlioz ou Haydn.... Ora essa! E, ainda mais, um instrumento de música bem afinado somente o é no que concerne às ondas sonoras que o ouvido humano percebe. Parece que os cães às vezes detestam certos instrumentos que nós apreciamos: Convenhamos então que, em relação aos ultra-sons, estes instrumentos lhes oferecem uma bela cacofonia! E, ainda neste caso, as plantas não apenas teriam como nós um senso de estética musical - e o mesmo que nós! - mas seriam também sensíveis exatamente às mesmas larguras de ondas que nós - todas as espécies vegetais também! Eis aí um belo exemplo de antropomorfismo.
Seria fastidioso detalhar assim, opondo-as, as diversas pretensas experiências relatadas neste gênero de livro das quais todos já escutaram falar. Para mim é pouco duvidoso, ao examinar vários exemplos, que os autores de tais livros ou artigos são desonestos, e que a maior parte dos leitores é complacente. Por isso desejo que as pessoas me comuniquem se conhecem tal tipo de experiências para que eu possa estudá-las, verificá-las e controlá-las. Isso porque muitas pessoas que querem compreender um pouco o mundo onde vivem às vezes têm pouca confiança nas concepções cientificas atuais, mas acabam elegendo concepções ainda piores4.
 Atualmente, apesar de a realidade implicar tão pouco (e contradizer tanto) a hipótese de que as plantas tenham uma sensibilidade e uma consciência, essa tese encontra um número cada vez maior de aderentes: aderentes de princípio, poderíamos dizer, que acreditam nisso porque têm o desejo de acreditar. Pois tais livros de qualidade medíocre (para não falar de fraudes) dos quais falei acima, não podem satisfazer o leitor se este não estiver convencido antes da leitura ou, pelo menos, bem favorável, quer dizer, se ele não procura na leitura a confirmação de seus desejos. Assim, com toda evidência, a idéia de que as plantas sejam conscientes e sensíveis nos agrada, ainda que não nos esforcemos para procurar detalhadamente o que poderia ser realmente esta consciência ou sensibilidade. E ainda mais, esta idéia exerce sobre nós uma verdadeira fascinação, ao ponto de nos incitar a deixarmos de lado um pouco de nossos conhecimentos e nosso senso crítico. 
As pessoas perguntam bem menos, por exemplo, se os invertebrados (insetos, moluscos...) são sensíveis ou se têm uma «consciência», pergunta cuja resposta, longe de ser fácil, tem toda razão de ser feita. Entretanto esse problema suscita bem menos entusiasmo e interesse, ele não parece responder às aspirações dos humanos e não movimenta as multidões; para melhor dizer, ninguém se importa. O mesmo, porém, não acontece com as plantas justamente, sem dúvida, por serem infinitamente mais estranhas para nós, ainda mais do que os pequenos animais, e é essa estranheza que nos preocupa.
Pois eu creio que por trás desta vontade tão popular de acreditar que as plantas têm uma consciência ou uma sensibilidade se esconde uma vontade de conceber um mundo onde tudo esteja interligado pela sensibilidade, onde tudo tenha uma existência sensível, uma consciência, onde tudo tenha potencialmente um discurso, um significado, uma vontade: um mundo de onde o silêncio esteja banido. Assim, muitos são aqueles que pensam que as pedras ou os objetos também sejam sensíveis ao meio ambiente, ao que nele acontece, ao sofrimento dos outros, eventualmente, ou a suas emoções: segundo esquemas bem humanos, evidentemente! Vontade de ter um mundo onde nossos atos, nossos estados de espírito, nossas emoções tenham uma repercussão sobre o conjunto da realidade, onde não estejamos jamais sozinhos, em um mundo onde tudo o que fizermos tem importância, pois gera repercussões sobre a totalidade da realidade exterior e fica gravado pela realidade. 
Como se um outro (Deus ou a Natureza, através dos elementos naturais) estivesse sempre em contato conosco, mesmo quando estivermos sozinhos: ele toma conta de nós, ele sabe que ali estamos, não estamos sozinhos no mundo, e existimos para um outro (alguém)!
Esta inteligência ou existência sensível das plantas ou das pedras (ou das montanhas, ou da Terra...) é concebida dentro de uma relação humana utilitária: elas são nossa memória eterna, nossas testemunhas, aquelas que, ao nos verem viver, nos fornecem o sentido de nossas vidas. E lhes atribuir uma consciência ou sensibilidade permite afastar de nós a idéia de uma Natureza que nos seria totalmente estranha, a idéia de existirmos por existir, sem finalidade alguma. Nós lhes inventamos uma sensibilidade para quebrarmos o silêncio, para substituí-lo por um murmúrio imaginável: o eterno sussurro da vida e das coisas; mas, para a maioria das pessoas, isso não muda estritamente nada a relação prática que possam ter com as plantas ou as pedras: elas continuarão a ser arrancadas ou despedaçadas sem que se pense ou reflita mais sobre elas, e todos continuarão a falar de uma natureza harmoniosa e boa. 
Isso porque elas são vistas apenas como receptores, concebidas para nosso uso, tidas como pólo relativo inteiramente subordinado ao único pólo que os humanos querem ver finalmente como realmente existente ou importante: a Humanidade.

Este e outros textos de mesmo teor poderão ser encontrados no site dos CAHIERS ANTISPÉCISTES - REFLEXÃO E AÇÃO PARA A IGUALDADE ANIMAL

Notes :

1. Pois existem também animais que se movem muito pouco, como as conchas, dos quais não sabemos se sentem dor e prazer.
2. Peter Tompkins e Christopher Bird, La Vie secrète des plantes, ed. Robert Laffont, 1975; Martin Monestier, De la musique et dês secrets pour enchanter vos plantes, ed. Tchou; Robert Frédérick, L'Intelligence des plantes, ed. Arista, 1990; Jean-Paul Gibiat, «Avez-vous la main verte?», Ça m'intéresse n°17, julho 1982.
3. Cf. Henri Broch, Le Paranormal: ses documents, ses hommes, ses méthodes, ed. du Seuil, 1989. Neste livro bastante crítico, o autor menciona uma pretensa experiência relativa à sensibilidade das plantas que foi comprovadamente identificada como sendo uma farsa, e fornece a referência de trabalhos científicos deste tema que apenas forneceram resultados negativos. Ao explicar também o que são as fotografias Kirlian, destrói também os fundamentos da maioria das outras «comprovações» habituais fornecidas por outros estudos.
4. Assim, nunca encontrei um único estudo francês relativo à uma eventual sensibilidade ao sofrimento dos insetos, dos aracnídeos, dos antrópodos, dos moluscos... Na la Encyclopaedia Universalis, por exemplo, o longo artigo que estuda as himenópteros (abelhas, formigas...) não menciona, em nenhum momento, a existência de um sistema nervoso. É incrível! Pode-se ter a intenção de estudar ou conhecer a vida ou o comportamento de um ser sem mesmo se perguntar se ele sofre ou não, e o que é susceptível de fazê-lo sofrer? Particularmente, os cientistas franceses parecem considerar que sim! Como qualquer outro cidadão da rua, os cientistas não se preocupam com este tema, comportamento que revela totalmente o conformismo e a pobreza de suas pesquisas. O sofrimento animal é tabu, para os cientistas também.